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Entrevista | Héctor Mediavilla

Alexandre Belém 14 julho 2009 1.379 visitas 18 Comments

O catalão Héctor Mediavilla é um dos convidados do 5º Paraty em Foco. Membro do coletivo Pandora, Héctor ministrará o workshop Teu Ponto de Vista e participará da entrevista As Caixas de Sapato e Pandora, com o coletivo Cia de Foto.

Fiz uma pequena entrevista com Héctor sobre fotodocumentarismo e ensaio fotográfico. Uma prévia do que ele abordará no Paraty.

Para ver mais fotos de Héctor, deste ensaio “Elevadoristas”,  confiram no Flickr do Festival.

Aproveitem!

Alexandre Belém | Olha, vê

Fotos: Héctor Mediavilla

O workshop que você ministrará no Paraty em Foco é sobre o desenvolvimento e a reflexão sobre um ensaio documental. Quando um trabalho ou um conjunto de fotografias pode ser considerado um “ensaio”?

Quando falo de ensaio, quero salientar o fato de que implica um posicionamento por parte do fotógrafo. É necessário um processo de reflexão sobre esta realidade, uma aproximação, um conhecimento. Não vale chegar ao lugar e fotografar o que encontra na sua frente, se transformando numa testemunha de algo que apenas se entende. O ensaio implica uma profundidade maior, um maior compromisso e um tempo maior de risco posto que o fotógrafo diz com suas imagens: “Isto é o que eu quero lhe contar… Mesmo que tenha as minhas dúvidas, mesmo que saiba que poderia ser de outra forma (também válido)… Esta é minha opinião para tudo isto”. Do mesmo modo, no jornalismo escrito, podemos distinguir entre um ensaio e uma notícia, ambos podem tratar sobre a mesma realidade, mas são de gêneros jornalísticos diferentes. A notícia se limita a reproduzir o que se está vendo.

O seu trabalho está muito ligado a questões sociais. Um dos mais conceituados fotógrafos documentais brasileiros, J. R. Ripper, fala que não acredita na imparcialidade na fotografia. Qual a sua opinião?

Estou totalmente de acordo. Ainda que em outra época eu quisesse crer que a fotografia podia ser objetiva e como tal, um reflexo fiel da realidade. Hoje sabemos é impossível. Cada pessoa (e cada fotógrafo) vê, sente e se relaciona com o mundo de uma maneira singular, única. É mais, diria que a realidade como é não existe e, portanto não se pode fotografar isoladamente. Sempre, essa “realidade externa” é processada pela pessoa de uma maneira mais ou menos consciente a partir de seus referentes, seus valores, sua história pessoal, suas emoções, etc. E por isso, seu trabalho será inevitavelmente subjetivo. Gostaria de ressaltar que o fato da fotografia ser subjetiva não invalida em nada o seu valor, pelo contrário. Sem dúvida, creio que é imprescindível que seja honesta. Quer dizer, que não manipule nem engane. Pode focar em aspectos concretos, pode enfatizar naquilo que o fotógrafo documentarista queira ressaltar de tudo que está ocorrendo diante dos seus olhos, mas nunca tergiversar dos fatos. Se assim o fizesse, sem nenhum critério, estaríamos falando de outro tipo de fotografia.

Quando se fala em fotografia documental, logo lembramos de sofrimento e denúncia social. Qual a outra face e realidade da sociedade que o fotógrafo documental pode mostrar?

Para mim, a fotografia documental não se limita ao sofrimento ou a denúncia social. Não é simples defini-la com precisão. Gostaria de abordar o início de uma definição (de uma página e meia) que decidimos em uma mesa de trabalho entre diferentes atores do panorama da fotografia documental da Catalunha (editores, curadores, fotógrafos, etc). No festival de SCAN (Jornadas sobre La Fotografia Catalana) em maio de 2008: “A fotografia documental supõe um compromisso estrito do autor com a realidade que ela representa. Esse compromisso implica uma aspiração de exatidão e de honestidade na realização desta maneira de representar, o que na fotografia implica uma vontade de aproximar-se dos fatos e respeitá-los”.

Poderia complementar a definição com outros aspectos muito interessantes deste tipo de fotografia, mas ocuparia muito espaço. Talvez, em outra ocasião. Assim, o terreno de jogo da fotografia documental é tão amplo como essa “realidade que representa” (”a realidade exterior” que falava antes). Creio que a boa fotografia documental deva gerar reflexão sobre a realidade que o fotógrafo representa, deve emocionar, deve ajudar a revisar as crenças sobre o mundo e sobre o ser humano. Deve nos fazer questionar o nosso papel como pessoas nesta vida… Definitivamente, tem que ter um impacto no espectador. Frequentemente, esse impacto é efêmero, porém, menos é nada, creio eu.

Para você, qual foi o resultado do Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero Americano que aconteceu em São Paulo no final de 2008?

O encontro foi uma grande oportunidade para conhecermos os diferentes coletivos e pode começar a trabalhar juntos. Foi uma experiência genial. Demos conta que cada coletivo é um mundo a parte, com suas particularidades, que trabalha em ambientes bem diferentes. Aprendemos uns com os outros, dividimos métodos de trabalho, computadores, câmeras… Creio que o encontro foi a semente para colaborações cruzadas entre coletivos que já estão acontecendo… Desde o encontro, estamos trabalhando em um projeto metacoletivo (MOTOR) para dar uma certa estrutura a estas sinergias.

PDF da entrevista em espanhol: hector mediavilla

Fotos: Héctor Mediavilla

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18 Comments »

  • Flavita Valsani said:

    Ótima a entrevista Alexandre e adorei o ensaio dos "Elevadoristas", uma categoria praticamente em extinção.

  • Paraty em Foco 2009 » Blog Archive » Héctor Mediavilla said:

    [...] Héctor ministrará um workshop bem legal no Paraty. Confira a entrevista, aqui. [...]

  • João Menna Barreto said:

    Constrangedora minha situação de repetir o já dito pela Flavita, mas é isso: boa entrevista e ótimo ensaio!

  • Nario Barbosa said:

    acho bacana que tragam mais fotografos para darem entrevistas é um meio de conhecimento nesse mundo tão pequeno.

  • Cia de Foto said:

    Oi Belém,

    Héctor é realmete uma figura.
    Muito bom fotografo, aliás de um escola amadurecida de ensaios e assignments para editorias.
    É bem interessante ver como ele pauta seus trabalhos e os tornam público. Ele é uma aula em uma certa escola de edição.

  • Paraty em Foco 2009 » Blog Archive » BELÉM ABRE A CAIXA DE PANDORA said:

    [...] BELÉM fez a entrevista desta semana no blog do 5º Paraty em Foco. Foi com o catalão HECTOR MEDIAVILLA, membro do coletivo Pandora, que ministrará o workshop Teu Ponto de Vista, além de participar da [...]

  • Ivã Coelho said:

    Sábias e experientes palavras. Uma chamada reflexiva. Muito bom.

    Continuemos assim, em alto padrão.

  • Carlos Oliveira said:

    Otima entrevista Belem

  • Jean Schwarz said:

    Bravo!!! Parabens pela entrevista Belém.

  • Clicio said:

    Belém,

    Parabéns pela bela entrevista com o Hector.
    Faço coro aos muitos que já comentaram, e peço *mais entrevistas* deste naipe, que tanto nos enriquecem!

  • Ivaldo Cavalcante said:

    Muito Bacana a entrevista, Parabéns!!! Estou em um dilema "Esquisito", estou fazendo um ensaio e fazendo um documentario sobre um rapazinho de 16 anos que dorme em um Contêiner destes de lixo. ele e viciado em cola de sapateiro e com certeza outras cositas mais. Na verdade ele faz a propria droga dele, ele mistura tudo tipo de tintas numa pet destas de coca-cola litro e mistura tudo,enfim, e foda que ele dorme dentro do conteiner. se alimenta, se veste, faz tudo!!! ate que ponto você pode mexer na realidade? " não manipule nem engane" como disse Héctor Mediavilla?…Já pensei em descolar um tratamento urgente pra ele, é ai!! como fica o ensaio o Documentario?. a loucura dele?. Já realizei uns ensaio superbarrapesada mais este confesso pra vcs que ta FODA.

  • Paulo Fehlauer said:

    Olá Ivaldo,

    Acho que o seu questionamento é recorrente, mas ainda bastante pertinente. Logo nas primeiras frases do seu relato, pensei "como ele consegue apenas fotografar enquanto o rapaz acaba com a própria vida?". É nessas horas que me afasto do fotojornalismo de denúncia, por não me sentir melhor do que um urubu à espreita. Nunca me convenci de que estaria realmente fazendo algo de bom para alguém que não fosse eu mesmo.

    Não que eu não considere esse estilo de jornalismo importante, ele é até necessário. Mas a linha é muito tênue, e nessas horas me pauto pela humanidade; há situações em que a atitude mais humana é baixar a câmera e arregaçar as mangas. Quem ganha mais com um ensaio, o mundo ou o nosso próprio ego?

    Portanto, sugiro que se coloque essas questões. Se achar que é possível oferecer ao menino alguma ajuda que vá além da fotografia, por que não fazê-lo? Seu ensaio pode virar a história da recuperação dele (ou não). Talvez ele recuse a sua ajuda, talvez isso, talvez aquilo, como saber? Deixe a história acontecer e então conte-a da melhor forma possível, seja ela qual for. E tenha em mente que você já é personagem dela, não há objetividade possível.

    Abraço!

  • Clicio said:

    Paulo,

    Este foi um dos melhores posts que li a respeito do assunto (recorrente, como vc mesmo diz).
    Sua postura é a minha postura. Ajudar, se necessário. Fotografar sem omissão.

  • Cia de Foto said:

    Oi Ivaldo,

    mostra para gente alguma coisa do ensaio.
    Mesmo que ainda esteja em desenvolvimento, ia ser bacana ver!

    Um documentário muito legal, e próximo ao assunto que vc tá abordando é "O Menino Aranha", http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=7356

    Dá uma olhada.

    Abs

  • Paraty em Foco 2009 » Blog Archive » A difícil escolha de um workshop said:

    [...] Confira a entrevista com Héctor que fiz recentemente, aqui. [...]

  • Paraty em Foco 2009 » Blog Archive » A fotografia compartilhada de Héctor Mediavilla said:

    [...] ensaio Elevadoristas de Héctor Mediavilla provocou Georgia Quintas. Após a entrevista que fiz com Héctor para o blog do Paraty em Foco, Georgia escreveu este texto que faz algumas [...]

  • Héctor Mediavilla « Georgia Quintas said:

    [...] Entrevista com Héctor Mediavilla no blog do 5º Paraty em Foco. Posted by Georgia Quintas Filed in artigo, fotografia Tags: artigo, fotografia, Héctor Mediavilla, photography, texto Leave a Comment » [...]

  • тыия said:

    Я так понимаю, в самом последнем абзаце как раз вся соль и изложена ;)

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