Uma foto leva à outra, por Georgia Quintas
Ao ver tantas fotografias o olhar fica à deriva. Não por questões técnicas ou estéticas. Mas, pela profusão, pela diversidade, contextos, soluções, desconstruções…
Contemplei muito e resolvi fazer minhas concessões a respeito deste processo de mostrar para vocês o que me inquietou. Parti então para um recorte imaginário que comecei a perceber pontuada pelas imagens do flickr group do Paraty, de modo que compatilho com vocês algo que passo a chamar de espírito de reminiscências.
São retratos, natureza morta, pessoas, enfim a vida apreendida. Cenas simplistas que desvelam um bolor na nossa memória. Entretanto, refiz o percurso destas escolhas e elas se apresentam também por sua força de resolução estética, de deslocamento e firmeza na latitude em se criar e provocar a renovação e prazer em nosso olhar. E essas conexões se alinham à lembrança de David Hochney, Claudia Andujar, German Lorca…
A questão é lembrar…
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Oi Georgia, que bela seleção! O caminho pelas reminiscências é nobre porque essa palavra tem um sentido maior quando a gente fala de fotografia, não é? Ela se relaciona com a lembrança do que a alma viu, ou contemplou. Uma palavra que se refere a uma memória incosciente e de antepassados. As reminiscências é o que mata o autor. Que refaz o mundo poroso de referências.
E a gente aqui como editores desse mar de fotos, estipulamos outros sentidos, as fotos fogem de seus Flickrs originais e caem em outro imaginário.
Como escreveu um amigo próximo esses dias "…nos confronta com o fato universal – e nem sempre aceitável – de que assim que o instante muda, muda também a verdade."
Que legal essa ação do Blog. Que legal ver você estimulando as percepções em torno da fotografia. Por que para entender isso tudo, esse TOC universal que virou fotografar, temos que pensar, não é? Contemplar com mais tempo que certezas, com mais reminiscências que fatos ou dogmas históricos.
Georgia, obrigado pelos comentários. Estas manifestações nos estimulam a continuar a nos comunicar através da fotografia.
Antonio Nepomuceno
Olá Antonio, seu trabalho é verdadeiramente tocante.
Parabéns e obrigada.
Pois bem, os recortes que damos a esses processos de escolhas e seleções é bem angustiante…
Quando vejo um emaranhado de fotografias como essas no Flickr do Paraty, a minha sensação é da precariedade do nosso conhecimento. Apesar de repertório e referências, sejam quais forem, tudo se renova diante dessa possibilidade. Cai-se em queda livre… Porque contamos com a incrível e solapamente percepção de que temos muito ainda a apreender. Porque os questionamentos propostos em tais imagens nos fazem pensar. E essa é a graça: tentar entendermos a imagem fotográfica…
Espírito de reminiscências. No alvo.
Na adolescência vi a grande paixão do meu pai crescer. Criador de Curiós, já recusou um carro semi-novo, me lembro bem aos 11, "4.000km rodados" disse o comprador… algo como um Vectra atualmente "Não. Esse não tem preço. Quero ver alguém "fazer" um como este aí". E assim o Mosca continuou cantando pela casa. Cresci não me conformando com essa "falta de tino comercial" do meu pai. Na adolescência, rebeldia. Além de não aguentar o canto de inúmeros Curiós me acordando logo cedo depois de uma noite de farra, na hora do almoço, à tarde… como quis o fim deles!
Hoje ele se "profissionalizou" mas continua com a paixão pelos belos cantantes. "Só vendo os que desafinam e as fêmeas que não sabem cuidar"… Distante da casa de meus pais há 5 anos, 330kms e já há 10 anos distante da adolescência, aquilo me faz falta. Quando os visito, o vejo tratar, ajudo a tratar, reparo se os pássaros estão bons. Comento sobre o canto de alguns e pergunto qual é o fodão da hora. Ele adora contar. Com 72, se aposentou da brilhante carreira que construiu na Medicina. Profissional cujo lema sempre foi "Eu opero para salvar, não para ganhar dinheiro", nunca cobrou de quem não podia pagar e, recentemente eu soube pela nora da operada, riquíssima por sinal "Não posso cobrar por ter que reparar o erro de um colega de profissão". Colega este que ele não sabe nada mais além de ser outro médico.
Creio ter me alongado. Mas é só para ilustrar que eu penso muito nele e na sua paixão e não me conformo em um dia ter desejado que "esses pássaros sumam".
No alvo Georgia. Obrigado!
Georgia,
Tudo isso é muito grande e, tomara, interminável!
Essa sensação de queda livre também está do lado de cá, quando vemos uma foto nossa chamar a atenção de alguém em meio a tantas outras produções de qualidade. É como se o nosso "achismo" entendesse que ela virou um post no Flickr e por isso se encerrou ali, chegou ao ponto final. Mas não, ela só está começando sua caminhada, uma vez que precisa da percepção alheia pra ser apreendida. Eu ando caindo cada vez mais e percebendo o quanto isso é saudável, o quanto eu mesma ainda tenho muito o que aprender sobre o que ando fazendo. e sigo apreendendo!
Um abraço!
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